Sabia como apreciar uma peça de cerâmica feita artesanalmente.


Uma rápida perspectiva sobre as peculiaridades da produção cerâmica:


- Argila:
Cada lote de argila é único, o que faz com que cada peça seja exclusivamente só sua, a extração, mesmo sendo feita do mesmo local possui composições diferentes, o que faz com que possamos apreciar as variações que a natureza nos presenteia com o exercício de saber aceitar nossas experiências como únicas em cada espaço de tempo que vivemos.

- Produção:
Assim como os lotes de barro são únicos, nossos momentos de estado de espírito e energias são únicos, e como minha energia está impressa em todas as peças, por mais que a produção do design seja aparentemente igual, nenhuma unidade será igual a outra, o que na minha opinião só reforça que assim como não existem pessoas totalmente iguais, porque então ainda insistimos na ideia de produtos perfeitamente iguais para pessoas diferentes?
Quando compramos frutas e legumes não ficamos examinando a diferença no tamanho e nas texturas e manchas certo?

- Queimas e Tempo: 
Todas as peças passam por pelo menos duas queimas, sendo uma que chamamos de biscoito e outra da esmaltação que pode ser de baixa temperatura ou alta temperatura, no caso de detalhes metálicos como o dourado precisamos ainda de uma terceira queima, o que acaba estendendo o tempo de produção pois além das queimas temos que lidar com o tempo de produzir, secar e esmaltar todas elas manualmente, e assim aprendemos a aceitar que “ tudo tem o seu tempo “ até mesmo nós.

- A cor branca e “pura”:
Sobre as polêmicas cores, primeiro falaremos da cor da terra, você já viu uma montanha de terra branca? Pois bem, temos uma cultura higienista que nos coloca em uma posição de gostarmos do “clean”, e de pensar que o branco é mais limpo, essa cultura vinda bem resumidamente dos tempos das grandes pragas na Europa, se estende até hoje com a nossa cultura, fazendo com que deixemos de lado a beleza natural da cor da terra, sem falarmos das reservas de terras mais claras sendo dizimadas por ainda acharmos que a cerâmica branca é de melhor qualidade, o que não é verdade.
Então, que tal celebrar a cor da nossa terra e apreciar nossa abundância, aprendendo a ver a cor da cerâmica com outros olhos?

- Cor do esmalte:
A indústria procura buscar uma excelência em padrão de cores, onde já investiu bastante tempo, estudos e tecnologias para estabilizar as variações de cores dos produtos feitos em larga escala, pois bem, não estamos tratando aqui de enormes estruturas, investimentos, tecnologias e máquinas, estamos falando de pessoas.

É possível sim chegar a um padrão mínimo e máximo de cor, mas não com uma estrutura artesanal. O que devemos levar em consideração no caso da variação de cores, é que os esmaltes cerâmicos são feitos resumidamente a partir de minerais, e não há como se controlar exatamente as composições de cada mineral e sua variação entre lotes. Outras variáveis como o tipo de argila que está recebendo o esmalte e o controle da variação de temperatura dentro do forno, influenciam na cor da peça.
 
- Custo:
Trabalhei e estudei para a indústria por certo tempo e confesso que a minha maior dificuldade é precificar uma peça. Ainda tenho a mentalidade do consumo industrial e acredito que ainda a maior parcela dos consumidores também, entenda agora algumas diferenças de custo entre uma peça industrial e uma artesanal:

Na indústria as peças costumam passar por estufas enormes e bem controladas para a secagem antes da primeira queima, artesanalmente devemos seca-las naturalmente ao tempo, controlando para não correr o risco de perda já nessa etapa por conta de rachaduras pela diferença de contração na superfície, de um formato para outro e dependendo de como está o clima, no caso de prato e peças largas as perdas podem ocorrer já nesse momento.

A queima industrial também é feita em enorme escala, já a queima em pequena escala depende do espaço do forno que mesmo sendo artesanal tem um alto custo aqui no Brasil ainda, limitando assim a quantidade de peças a serem produzidas por fornada.
A modelagem industrial é comumente feita por máquinas enquanto a artesanal, uma a uma por um ser humano, que também precisa descansar, respeitar seus limites, viver e se alimentar, além dividir o seu tempo entre, produzir, criar, vender, comprar, embalar e administrar.

A esmaltação em algumas peças artesanais é feita com pincéis principalmente as que possuem desenhos, o que aumenta mais ainda o tempo de produção.
Sobre o tempo de produção, industrialmente estamos falando de dezenas ou centenas de peças por hora e artesanalmente falamos de horas de trabalho em apenas uma peça independente do seu tamanho, digo isso porque uma peça mesmo pequena pode ter o mesmo custo de uma grande. E quanto você gostaria de ganhar por hora no seu trabalho? Pagaria 3 vezes esse valor em uma peça que precisou de 3 horas para ficar pronta?
 

E por fim falando de troca, eu ponho a minha energia em tudo o que faço, você põe energia no seu trabalho e nós, faremos essa troca pessoal de nossos esforços diretamente. Eu acredito e ponho fé no que estou fazendo, para lhe entregar um produto feito com propósito de vida portanto não podemos ver a produção artesanal ainda como o mesmo produto que o industrial, não podemos comparar principalmente seus custos, pois estamos em uma relação de troca entre pessoas e suas vidas e não máquinas e enriquecimento exagerado acima dos valores humanos.